Château Chartreux

Um mergulho em si

Rouge, substantivo masculino, palavra francesa com origem no latim rubeus, vermelho, sinônimo de blush no mundo dos cosméticos por garantir um rubor numa escala de “pra parecer que tá com saúde” a algo mais artístico, tal qual Sabrina Carpenter. Para este texto, trata-se do livro de Mona Awad publicado no Brasil em 2024, um dos três títulos abordados nesse texto com spoilers.


Nele, acompanhamos Belle, que acabara de perder a mãe e precisava então retornar à casa onde passou a infância para resolver os típicos imbróglios post mortem, como verificar roupas, maquiagens, móveis, reparar e vender uma casa que a mãe deixou para trás. Ou era o que ela tinha em mente, pois toda a burocracia é menos um objetivo e mais uma pedra no sapato dela, pois o cronograma da rotina diária de beleza de “42 passos para uma pele perfeita”, um oferecimento da YouTuber favorita dela passa de um ritual natural a mais um afazer espremido na agenda.


Essa preocupação com o que ela chama de saúde da pele não é somente fruto da cultura do skincare que se desenvolveu nessa era digital, como também uma obsessão passada de geração em geração que vai sendo polida. Apesar da falta de tempo até para exercer tais rituais, em meio a estadia na casa ela se vê envolvida com Seth1, que exercia dupla jornada de jardineiro e ex-affair da mãe. Em meio a isso, ela recorda que a mãe costumava bater muito em uma determinada tecla: que ela não precisaria ter tanto afinco em relação a cuidados com a pele por ser filha de pai egípcio, sua tez não envelheceria tão rápido quanto a da mãe, uma estadunidense branca.


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No início somos levados a crer que vemos a história a partir de um ponto de vista mais “racional” da protagonista, em oposição à mãe, uma pessoa errática, que quando confrontada desatava a falar frases completamente desconexas e chegava como um furacão na loja de roupas que vendeu para a irmã há muitos anos. Reorganizava os manequins, atendia clientes como se dona fosse, ficava ofendida quando ousavam falar que aquela loja não era dela, seus desígnios eram os de uma força da natureza.


Enquanto ainda se acostumava com a moradia temporária, Belle recebeu um convite misterioso para o spa “La Maison de Méduse” 2, onde a mãe fazia tratamentos estéticos que funcionavam brilhantemente. E assim se inicia a jornada, ao deixar para trás a pulseira com o Olho de Hórus – um amuleto que o pai lhe dera há eras –, e calçar os saltos vermelhos da mãe, pondo-se – literalmente – no lugar dela3 sendo por eles levada ao palácio. Após os primeiros tratamentos, a protagonista nota o aumento do viço da pele, agora radiante, e de visita em visita, acaba por ascender na hierarquia de clientes do local, sendo selecionada para procedimentos “mais exclusivos e com resultados ainda melhores”, e nas breves interações com outros clientes, descobrirmos que é invejada em razão da miríade de tratamentos que conseguiu num curto espaço de tempo.


Ao entrar no local, ela é informada que dinheiro não seria uma preocupação, mas existe um custo oculto: a cada procedimento a protagonista também passa a viver num constante estado de confusão mental, que começa com lapsos de memória, um vocabulário cada vez mais confuso que se afunila – onde o leitor precisa fazer encadeamentos cada vez mais longos para compreender o discurso. O que mantém o leitor num estado de dúvida: será que é a personagem mesmo ou foreshadowing? – e por fim ela cai num completo descolamento da realidade, seguindo assim, os passos da mãe.


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Em A Substância (2024, Coralie Fargeat) Elisabeth Sparkle, uma estrela em decadência, é demitida do programa fitness que comandava para ser substituída por alguém que fosse mais nova, e para os padrões de beleza do showbiz – em que o maior defeito de uma mulher é parecer ter passado dos 304 –, mais bonita.


Elisabeth, que tinha uma senso de si mesma baseada na aclamação do público, se vê desolada ao ser descartada e recorre a um procedimento extremamente questionável que prometia criar a melhor versão dela – através da divisão da Elisabeth em matriz e “outro eu” – com uma simples condição: elas precisam alternar a consciência de um corpo para o outro a cada sete dias. Assim, ela “dá a luz” à Sue, uma cópia com metade da idade da matriz, que abala a emissora com uma audição impecável, e assim volta para os holofotes, assegurando uma satisfação instantânea desse desejo. Com uma pequena nota de rodapé. Em teoria elas podem até ser uma, mas suas personalidades e lembranças não poderiam ser mais diferentes.


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Assim, uma relação aparentemente harmoniosa foi à ruína cedo até demais, pois Elisabeth se frustra ao perceber que seu papel é definhar em casa vendo TV, e Sue se sente presa. Apesar de estar em seu auge, só trabalha. Ou então fica desacordada no chão do banheiro por uma semana. Essa sanha, tímida nas primeiras semanas, acaba por explodir num pico de rebeldia juvenil e o que eram algumas horas “emprestadas” se tornam dias, semanas e até meses. Como nada se cria a partir do vácuo, cada momento que Sue tira de Elisabeth acaba por deteriorar o corpo da matriz, que então se revolta com a falta de cuidado da cópia. Essa raiva também acaba por atingir níveis estratosféricos, que parece caminhar para outra explosão, mas acaba por se transformar numa implosão em razão dos grilhões/anseios de Elisabeth em ser lembrada e amada por todos. Mas quando se chega na perfeição, o que há além dela? E é assim que esse filme se despede de nós, com toda a angústia e raiva dessas personagens criando um monstro de Frankenstein, repugnante, fragilizado, com pouca ou nenhuma capacidade de processar a realidade.


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E por último, mas não menos importante, Helter Skelter (1995, Kyoko Okazaki, adaptado em filme em 2012 por Mika Ninagawa), que começa com o alerta de que “risos e gritos têm sons semelhantes”. A história se inicia com garotas adolescentes conversando sobre uma modelo – A modelo – Liliko, que tem um lindo corpo, é misteriosa sobre a própria idade e por vezes não fala coisa com coisa, mas é parte do charme dela.


Como toda supermodelo dos anos 90, o que dá lucro ela faz: música, filme, aparições na TV e por trás das câmeras segue o padrão de que “toda grande luz tem uma sombra enorme”, que se traduz em abuso de substâncias, transtornos alimentares, prática habitual de assédio com a equipe. Mas algo novo ocorre. Ela nota que em seu rosto perfeito abre-se uma ferida, muito provavelmente resultado de uma plástica antiga, o que a faz espiralar atrás de novos procedimentos cada vez mais fortes – com direito a um quadro no mangá onde ela compara cremes a crack.


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Claro, para o mundo externo nada disso é perceptível, pois em entrevistas ela sustenta que o segredo da beleza é dormir e fazer aromaterapia. Ainda no início, outra preocupação de Liliko é a de que ela perderia valor de mercado, e com isso, todos, incluindo a “mãe” – como ela chama a empresária –, deixariam de amá-la. A obra é bem consciente sobre a recorrência da história que pretende contar sobre uma celebridade definhando, incluindo personagens mencionando Crepúsculo dos Deuses (1950, Billy Wilder) em uma conversa. Ela sente mais ainda o baque mental quando entra na agência e é apresentada a nova modelo, uma jovem de 14 anos – 18 no filme – que tem lindos olhos e uma pele naturalmente perfeita, caso oposto ao da Liliko que recorreu a uma clínica que se utilizava de tráfico de órgãos para operar pessoas dos pés à cabeça para assim se tornar a face do momento. O filme é também sobre os sofrimentos que a manutenção do corpo e uso de imunossupressores lhe traz.


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Com a apresentação dessas três obras se inicia o texto de hoje. Elas apresentam exemplos muito didáticos e que por vezes alcançam até mesmo um tom de lição de moral. A indústria da beleza, tão rechaçada – por ser tipicamente associada a mulheres e em consequência disso ser considerada “superficial” – ainda assim é uma máquina colossal que cresce ininterruptamente e se modifica, mas nunca para e consome todos que nela espiralam. A rotina de cuidados com a pele da Belle, apesar de escrita com o humor ácido típico da Mona Awad ao retratar os absurdos tão comuns da vida, tem um efeito semelhante ao de quando percebemos quem é o povo Nacirema5. Esses hábitos são tão esculpidos ano a ano tal como um cânion castigado pela erosão que por momentos mesmo a mais exagerada das sátiras parece um retrato fiel da realidade.


Acerca da movimentação da indústria da beleza, um exemplo fácil de mudança seria a comparação do contato das marcas com seu público alvo em diferentes décadas. Nos anos 2000 era muito comum que as marcas falassem, ora com meias palavras, ora diretamente – a depender do público –, que suas clientes eram pessoas feias e que o produto oferecido pelas empresas seria a salvação dos defeitos delas. Na década seguinte, com um protagonismo maior de movimentos sociais no mainstream, as marcas são forçadas a mudar de vocabulário para manter o público, afinal de contas agora se aceitar do jeito que veio ao mundo era tendência. Aceite sardas, acne, pare de alisar o cabelo, você já está em sua melhor versão era o mote. Com isso, a comunicação passou de “você é feia” a “você é uma deusa, mas essa deusa brilhará ainda mais com essa nova paleta de sombras”. Como tendências são razoavelmente cíclicas, logo essa atitude entrou em baixa, o mundo guinou rumo ao conservadorismo, e a estética y2k também voltou à moda. Inicialmente isso se deu a nível fashion, mas com a popularização da dupla Ozempic e Mounjaro, o body positivity evapora, voltamos ao culto da magreza extrema dos anos 2000 e – ignorando diversos fatores sociais e biológicos –, também o declínio do entendimento de que a pessoa não necessariamente consegue escolher o terno de carne que habita, mas meramente usa o que o organismo lhe impõe.


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Outro ponto em comum dos três que também foi uma tendência a retratar a raiva feminina de uma maneira que se tornou muito popular nas redes sociais. Neste caso em específico alguns podem até argumentar que também se encaixa em “o lado feio da beleza”, que as faz entrar em parafuso. Em decorrência dos tratamentos Belle cada vez mais chafurda nos ciclos que culminaram na morte da própria mãe, se torna impaciente, aérea, invade a loja, ignora alertas anteriores e passa a se comunicar através do espelho com Seth, algo que ela era terminantemente proibida de fazer. A existência dele por si só já desencadeia uma série de questionamentos: do quanto a escolha do nome do personagem pode ser indicativo de sua índole ou da natureza dele como uma entidade ou ser humano. Tudo isso reproduz algo muito característico da Mona Awad e um dos meus aspectos favoritos ao ler os livros da autora: não se tem muita certeza do que exatamente está acontecendo ali. Ao escolher o livro como uma das leituras de Halloween acreditava que pela estética da “rosa vermelha em chamas” na capa poderia ser algo com vampiros ou um dramalhão. Existem teorias sobre se tratar de demônios, mas o leitor não precisa se preocupar, tanto Bunny (lançamento anterior da autora) quanto Rouge exigem que se abra mão de ter o total entendimento sobre o que acontece ali. Forma-se uma ideia, uma teoria, mas são livros dos quais cada um sai com a sua própria verdade


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Já em Helter Skelter, Liliko fica mais agressiva com o passar da história, principalmente após perceber que os medicamentos já não surtem tanto efeito quanto antes, deixando-a com lesões por todo o corpo. Conhecer a nova concorrente da agência e perceber que a porta de saída do showbiz – um possível casamento com um herdeiro – se fecha são a gota d’água para uma pessoa egocêntrica que por padrão vivia no limiar da lucidez. Sem qualquer controle sobre a própria trajetória, passa a gritar muito mais do que o comum, espernear e para além disso, o abuso que Liliko cometia contra a manager e o namorado dela se tornam frequentes e passam de verbais para físicos e sexuais, além de usá-los como capangas para desfigurar aqueles que ela via como uma ameaça, numa ilusão de que caso a concorrência deixasse de existir – tanto a nova modelo quanto a herdeira com a qual o caso dela viria a se casar –, ela voltaria a ser a atração principal no coração da sociedade.


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Elizabeth, ao perceber sua condição e ver Sue esbanjar às custas do corpo dela num piscar de olhos destrava o joelho em meio à ira e começa a cozinhar descontroladamente. Sue retorna na semana seguinte e grita aquele maravilhoso “CON-TROL YOUR-SELF!”, momento que inicia uma arrancada que culmina no momento que as duas estão conscientes e quase brigam até a morte num banho de sangue. Em seus momentos finais, Liliko e Elisasue são muito semelhantes, utilizando seus últimos momentos de frente para as câmeras para entoar o canto dos cisnes. Elisabeth é sentenciada ao esquecimento. Já Liliko, reinicia o ciclo, de volta a ser uma lenda urbana, mas dessa vez as histórias sobre dormir com uma foto dela embaixo do travesseiro se dividem entre as que ela é uma espécie de totem de má sorte e as que dizem que ela é uma espécie de deusa da beleza para a qual se deve rezar todas as noites.


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Apesar da minha parte favorita nessas histórias ser o modo como se mergulha tão fundo na psique das personagens, suas neuroses mais íntimas são expostas e como isso acaba por afetar as relações não somente sociais como as que a pessoa tem consigo mesma num nível extremo, era impossível não falar sobre a indústria da beleza nesse meio, pois é o meio pelo qual se conta como todas entram em parafuso e acabam por entram em ciclos viciosos.


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A Substância acabou virando pra mim um queridinho no quesito retrato de raiva feminina, tal como Eu, Tonya (2017, Craig Gillespie) e Cisne Negro (2010, Darren Aronofsky) que são citações padrão quando se fala do assunto, mas tem motivo pra serem lembrados à exaustão. Numa nota final, me pergunto se a Coralie Fargeat nomeou a Sue como numa referência a Mary Sue, pois para o mundo exterior de fato ela é impecável, mas com a faceta de perfeição que logo se desfaz assim que ela entra porta adentro, restando somente Sue mesmo.


FiguraDespedida


  1. Nome do deus egípcio do caos e guerra. Rival de Hórus, responsável pelos céus e pelos vivos.

  2. Referência à águas-vivas. “(...) também conhecidas como medusas ou mães d'água (...)” https://pt.wikipedia.org/wiki/Água-viva_(animal).

  3. do inglês, “put yourself in someone's shoes”.

  4. “Girls are not meant to fight dirty / Never look a day past thirty” <https://genius.com/Marina-girls-lyrics>.

  5. “American” escrito ao contrário. O texto em português na íntegra pode ser encontrado em https://www2.unifap.br/poscult/files/2018/08/Texto_MINER_Nacirema.pdf.

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